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Jornal de Goiás – Em Davos, até a igreja abre as portas ao capitalismo

Em frente a sua pequena igreja coberta de neve, o pastor Marc Schmed observa como pedreiros transformam seu templo em um espaço comercial para uma empresa dinamarquesa, que alugou o local durante o Fórum Econômico Mundial (WEF).

No lado de dentro da Freie Evangelische Gemeinde (Igreja Evangélica Livre), em pleno centro desta exclusiva estação de esqui nos Alpes suíços, cerca de 20 pedreiros trabalham para instalar um novo piso e várias telas.

A empresa dinamarquesa de pagamentos pela internet Tradeshift transformará durante alguns dias a igreja em um lugar chamado The Sanctuary (O Santuário), mais um espaço criado apenas para o fórum anual que reúne e elite política e econômica mundial.

O pastor não quer revelar quanto recebeu, mas reconhece que “podia ter pedido mais”.

No centro do povoado, muitas lojas e pequenos comércios foram transformados por empresas e delegações nacionais que querem aparecer em Davos. Outras, como o Facebook, constroem instalações próprias temporárias.

neste ano, apesar da ausência de grandes líderes como Donald Trump, Theresa May e Emmanuel Macron, o fórum contará com mais de 3 mil participantes, que, com seus acompanhantes, elevam a 11 mil o total de pessoas em Davos durante a semana – o dobro da população regular.

O Fórum, organizado por uma fundação privada suíça, gera 44 bilhões de euros durante a semana, metade deles para os hotéis, segundo a prefeitura de Davos.

“É muito, muito importante para a economia local”, que se concentra no resto do ano no turismo, explica Samuel Rosenast, diretor de comunicação da secretaria de turismo.

Adrien Weber, gerente da padaria fundada por sua família há quatro gerações, contrata equipe para funcionar 24h por dia durante o Fórum, abastecendo diversos bufês e recepções. “As vendas dobram ou triplicam”, explica.

Os quartos de hotel para esta semana de janeiro são reservados com muitos meses de antecedência e o preço fica 10 ou 20 vezes mais caro.

O pastor Schmed explica que decidiu alugar sua igreja há quatro anos, quando atravessava problemas econômicos. “A decisão não agradou a todos”, admite, mas o dinheiro permitiu instalar um novo sistema de aquecimento.

O pastor admite que a presença do Fórum “cria problemas morais, não é boa”, sobretudo pelo dinheiro que traz para alguns proprietários.

Além disso, a chegada em seus de jatinhos privados e carros de luxo perturba a vida do povoado, conhecido por seu ar puro e para onde iam pacientes sofrendo de tuberculose, como descreveu Thomas Mann em seu romance do começo do século XX “A montanha mágica”.

Remo Gross, de 59 anos, que administra uma pequena banca em Davos, costuma levar sete minutos entre sua casa e seu negócio. Contudo, durante o Fórum, leva duas horas. “Não é divertido, mas durante uma semana podemos viver com isso”, afirma.

Seu faturamento, contudo, não se beneficia da chegada de milionários. “Meus clientes são os motoristas das limusines” que vêm comprar cigarros, explica.

Já os fiéis do pastor Schmed precisam escolher outras igrejas – com as quais ele fez um acordo – para frequentar durante esta semana. Durante esses dias, “nos reunimos todas as noites para rezar pelo Fórum Econômico Mundial e pelas decisões ali tomadas”, diz o pastor.

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# AFP

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