Jornal de Goiás – Maduro assume novo mandato com isolamento internacional crescente

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, durante coletiva de imprensa em 9 de janeiro de 2019 em Caracas

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, assumiu nesta quinta-feira (10) um segundo mandato de seis anos, considerado ilegítimo pelos Estados Unidos, a União Europeia (UE) e a maior parte da América Latina, que ameaçam aumentar a pressão contra seu governo.

Maduro, de 56 anos, prestou juramento ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ, pró-governista), em um ato ao qual não compareceram representantes da UE, nem da maior parte da América, com exceção de um punhado de mandatários aliados.

Nas primeiras demonstrações de repúdio regional, o Paraguai rompeu relações, Canadá, Peru e Argentina denunciaram uma “ditadura”, enquanto o Brasil e a Organização de Estados Americanos (OEA) declararam o governo Maduro como “ilegítimo”.

A UE, os Estados Unidos e o Grupo de Lima – integrado por 13 países latino-americanos e o Canadá – não reconheceram sua reeleição na votação de 20 de maio passado, boicotada pela oposição por considerá-la uma fraude.

Em uma declaração, a UE lamentou “profundamente” que Maduro comece um novo mandato emanado de “eleições não democráticas” e advertiu com a adoção de “medidas” se aumentar a deterioração da situação na Venezuela.

“União Europeia, detenha-se, não venha com seu velho colonialismo, com suas velhas agressões”, exclamou o chefe de Estado, que elogiou o movimento dos “coletes amarelos”, que desafia o governo francês.

Washington anunciou, por sua vez, que vai aumentar a pressão contra o que o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton, chamou de “regime corrupto”.

Em sua posse, Maduro acusou a UE de racismo e pediu “respeito”, enquanto voltou a denunciar uma tentativa de “golpe de Estado” orquestrada pelos Estados Unidos.

“A Venezuela é o centro de uma guerra mundial do imperialismo norte-americano e seus governos satélites”, disse Maduro, ao defender como “legítima” sua posse e pedir uma cúpula latino-americana para abordar a situação.

– O poder dos militares –

Herdeiro político do falecido líder socialista Hugo Chávez (1999-2013), o ex-motorista de ônibus e ex-sindicalista governa com mão de ferro o país, após tirar seus adversários do jogo político, com controle institucional e o apoio decisivo dos militares, a quem deu enorme poder.

Já com a faixa presidencial, Maduro compareceu à Academia Militar, onde, durante um desfile, 4.900 oficiais e soldados, encabeçados pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino, lhe juraram “lealdade e subordinação absoluta”.

Ao se dirigir a eles em um discurso, Maduro pediu uma Força Armada “unida, disciplinada, coesa e preparada (…) ante qualquer circunstância que tenhamos que enfrentar este ano ou nos anos vindouros”.

Minutos antes, o Parlamento, único poder controlado pela oposição, tinha chamado os militares a não reconhecer Maduro, a quem qualifica de “usurpador”.

“Fazemos um chamado claro às Forças Armadas (…) Não se deve reconhecer o que não foi produto do voto popular. Uma eleição se ganha com votos, não se rouba, e por isso você não é legítimo”, disse o chefe do Legislativo, Juan Guaidó, dirigindo-se a Maduro.

Segundo a Constituição, o presidente deveria prestar juramento no Parlamento, mas o TSJ o declarou em desacato e na prática foi substituído pela governista Assembleia Constituinte.

– “Agonia” ou “prosperidade” –

A desesperança faz parte da vida de muitos venezuelanos, asfixiados pela pior crise da história moderna do país que detém as maiores reservas petrolíferas do mundo.

“Isto vai prolongar ainda mais a agonia que temos vivido nos últimos anos. Tudo decaiu gravemente. Estamos de mãos atadas”, disse à AFP a enfermeira Mabel Castillo, de 38 anos.

Seus seguidores lhe pedem “mão de ferro com a economia”. “É o único que nos falta”, avaliou Yosmari Jiménez, de 27 anos, durante uma concentração de chavistas em frente ao TSJ.

Nas sedes diplomáticas da Venezuela no exterior ocorreram protestos contra Maduro. Em Lima, um grupo de 20 pessoas entrou de forma violenta na embaixada, obrigando a polícia de choque a utilizar bombas de gás lacrimogêneo.

Especialistas preveem um agravamento da crise socioeconômica. Além da escassez de alimentos e medicamentos, os venezuelanos amargam uma hiperinflação que, segundo o FMI, alcançará 10.000.000% em 2019.

Apenas nesta quinta-feira, a moeda venezuelana se desvalorizou mais de 50% no câmbio negro, superando os 2.000 bolívares por dólar.

No que considera a maior migração da América Latina em décadas, a ONU calcula que 2,3 milhões de venezuelanos emigraram desde 2015 pela crise e estima que esta cifra aumentará para 5,3 milhões em 2019.

Durante a gestão de Maduro, a economia diminuiu para a metade e encolherá 5% em 2019, segundo o FMI, o país e sua petroleira caíram em default e a produção de petróleo, fonte de 96% das divisas do país, despencou para 1,4 milhão de barris diários, a menor em 30 anos.

Ao ser empossado, Maduro prometeu buscar “a prosperidade econômica e social”, com uma série de medidas que vai anunciar na segunda-feira.

– Uma América Latina adversa –

Do Grupo de Lima, só o México enviou um representante para a posse, enquanto estiveram presentes os presidentes de Bolívia, Cuba, El Salvador e Nicarágua, bem como delegados de outros países aliados, como China, Rússia e Turquia, dos quais Caracas se aproximou mais devido ao crescente isolamento.

Maduro, que assume o cargo em plena ascensão de governos conservadores na América Latina, reiterou nesta quinta-feira que vai tomar medidas enérgicas contra o Grupo de Lima se nas próximas horas não retificar sua posição sobre a Venezuela.

Com o apoio de Washington e a exceção do México, o Grupo de Lima – onde o governo de Jair Bolsonaro fez sua estreia – emitiu em 14 de janeiro uma declaração pedindo que não tomasse posse e transmitisse o poder ao Parlamento, o que Maduro qualificou de tentativa de golpe de Estado.

Especialistas da consultoria Eurasia Group não veem mudanças no horizonte com uma oposição rachada e enfraquecida, uma população frustrada e com medo de se mobilizar, e que opta por abandonar o país.

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# AFP

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